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segunda-feira, 15 de junho de 2015

Diário de uma Voluntária de Saltos #25

Esta última sexta feira foi o dia do adeus.

Supostamente na semana anterior iria haver uma atividade que consistia num picnic e em serem pintadas duas t'shirts, uma para eles e uma para nós. Contudo, devido a problemas com as autorizações das pestes, isto não foi levado avante. 
Tudo a que tivemos direito foi ir esta sexta à escola assistir a uma pequena festa de despedida feita pelas professoras. 
Como já tinha comprado as t'shirts e achei que era uma atividade engraçada de fazer, fui mais cedo, apesar das minhas 3 horas de sono (época de exame requer medidas desesperadas), para que ela pudesse pintar uma para mim (a dela já ia devidamente pintada, linda e maravilhosa). Sei que ela é uma grande trapalhona, mas pensei que, como era para fazer um desenho num material diferente, ela fosse um pouco mais cuidadosa com o que iria desenhar. Não se verificou. Fez uns rabiscos e pronto, toma, está feito. Como aquela obra à Picasso não foi grande coisa, pedi para ela desenhar as mãos dela e escrever o nome, para eu ficar com uma recordação mais "concreta" dela na minha t'shirt.


A t'shirt dela.
 É assim que a relembrarei, como está no desenho, ela a cantar com um microfone e eu a ouvir.

A minha t'shirt.
Na manga diz Amiga Grande e aquela sou eu.

Esta atividade acabou relativamente rápido. Depois disto andamos um bocado na parvoíce. Cantaram, dançaram e a minha peste pediu-me para lhe ler uma história. Qual? A Cinderela, claro. Tendo em conta que era o último  dia, acham que consegui ler a história até ao fim? Claro que não (é o último dia mas não há milagres)! Contudo, normalmente apenas conseguia ler 3 ou 4 páginas sem que ela se fartasse e começasse a passar umas páginas  à frente. Desta vez consegui ler quase metade do livro seguido!! Que fenómeno inédito! 
Foi o dia em que estivemos mais tempo com elas e o dia que passou mais depressa.

O refeitório.

Como era também o último dia de aulas a escola estava toda enfeitada. 
No final, foram as turmas todas para o ginásio onde foram atribuídos diplomas/pastas de finalistas (onde é que nós já chegamos!) aos alunos da pré-escolar e do 4º ano pois, alguns deles iriam mudar de escola (juro que, aparecessem eles trajados e dava-me um fanico!). Foram ainda atribuídos diplomas por bom comportamento e desempenho a alguns alunos de todos os anos. Uns, com um sorriso de orelha a orelha, estavam orgulhosos por se irem embora, por terem concluído esta etapa, outros, de lágrima ao canto do olho, já sentiam as saudades e ainda nem se tinham ido embora (escusado será dizer que depois começou o choro por solidariedade e atenção). 

Não quis dar muita importância ao momento do adeus. Percebi que a Nicole sabia que era o último dia, até porque me abraçou muito mais vezes e com muito mais força do que o costume. 

"- Se, para o ano, tiveres outra Amiga Grande vais gostar dela na mesma está bem?
- Sim."

Não foi um momento muito difícil. Ela própria não me dificultou a vida. 
Gostei imenso de fazer parte deste projeto e é com muito orgulho que encerro esta etapa da minha vida. Apesar de sentir um pouco que lhe estou a virar as costas, sei que tenho de separar o meu lado profissional de voluntária, do meu lado pessoal (esta é a tarefa mais complicada do voluntariado com crianças). Nunca mais a vou voltar a ver...vou ter saudade e sei que, de vez em quando, vou parar e pensar "Como é que ela estará agora?". 
Não sei se consegui marcar a diferença na vida dela, afinal não partilhamos assim tanto tempo juntas. Mas sei que dei sempre o meu melhor e puxei muito por ela e isso deixa-me extremamente feliz.

Independentemente do que aconteça, só espero que sejas muito feliz minha peste. Nunca me vou esquecer de ti.


Lembrem-se:
Keep your heels, head and standards high,
Vanessa S.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Diário de uma Voluntária de Saltos #24

Hoje o dia da minha visitinha à peste foi bem mais calmo do que o da semana passada (felizmente!). Quando cheguei à sala já tinha a ficha de trabalho bem adiantada e, com alguma ajuda e incentivo, conseguiu fazer o resto como devia ser. Estava relativamente bem comportada e sossegada (não sei se foi efeito do intervalo especial da semana passada).
Quando chegou a hora do intervalo fomos para a biblioteca. Hoje foi dia de "trabalho". Ela era a trabalhadoras (claro) e eu a empregada. No fundo, eu tinha de levar-lhe todos os livros que ela solicitasse (sou um pau mandado nas mãos daquela cachopa) para que conseguisse fazer o seu trabalho num computador (da idade da pedra que não funciona). Muito compenetrada na sua tarefa, esteve algum tempo ali sentada apenas a carregar nas teclas com um ar muito sério. Depois contratou-me para a ajudar. Por fim, foi hora de leitura. Tentei convencê-la a ler para mim, mas não resultou. Em teoria li-lhe três histórias, mas foram mais as páginas que passou à frente do que as que li (sempre tão paciente esta criança).
Quando estava a retirar uma quantidade interminável de livros da estante avisei-a que depois teria de os arrumar todos. Assentiu com a cabeça e não pareceu muito incomodada com este facto. Quando chegou a hora de vir embora, eu vim à porta ver se os amiguinhos dela já tinham todos entrado e disse-lhe para vir embora para a sala.

"- Então e os livros?"

Bem, fiquei super espantada por não se tentar esquivar da desarrumação que tinha feito, mesmo quando eu própria me estava a esquecer (há uns tempos atrás não teria perdido esta grande oportunidade). Arrumou tudo e foi alegre e contente para a sala.
Não passou muito disto. Foi uma manhã bem calma como já andava a sentir falta.
Esta foi, muito provavelmente, a última manhã que passei com ela na escola. Para a semana haverá uma atividade especial e da qual não sei se ela sabe (mas também não lhe contei).
O projeto deste ano está a acabar, mas por mais gratificante que seja (e realmente é), sinto que estou a precisar de uma férias (isto a juntar a um carradão de trabalhos e agora à época de exames...).
Enfim, veremos como corre a atividade para a semana. Tenho a certeza que será um dia bem divertido. Aguardemos ansiosamente (depois logo vos faço o relato, serão os primeiros a saber fiquem descansados).





Lembrem-se:
Keep your heels, head and standards high,
Vanessa S.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Diário de uma Voluntária de Saltos #23

Esta quarta-feira, quer por motivos académicos quer por causa da aplicação do exame de 4º ano, vi-me impedida de ir ao meu voluntariado. Para compensar, e como já tenho feito várias vezes, fui ontem. Poderia ter sido uma quinta-feira normal e tranquila não é? Mas que graça é que isso teria? Nenhuma, responderia a (peste) Nicole. 

Ontem a matéria era o Euro. Iam aprender as moedas e a contá-las. Um facto interessante sobre crianças de bairros é que têm uma facilidade muito maior neste tipo de raciocínio com o dinheiro pois é uma realidade a que estão habituados. É muito mais fácil para eles fazer contas com dinheiro do que, por exemplo, para crianças de colégios (afinal ir comprar gomas e pastilhas tem uma utilidade prática). Um dos exercícios era colar as moedas nos repetivos lugares de modo a formar uma determinada quantia. Claro que a minha peste é muito alternativa e, em vez de colar as moedas no livro, preferiu armar-se em engracadinha e colá-las nos olhos. Ralhei com ela mas não ligou. Passou a aula toda distraída e com a caneta na boca. Ralhava com ela mas era o mesmo que falar para uma porta. Disse-lhe que ia ficar de castigo. Não acreditou. 
Chega a hora do lanche. Diz que vai levar a caneta para o recreio e que quer ir para o ginásio. Só lhe digo para ir buscar o lanche e vir ter comigo. Fui buscar a chave de biblioteca. Entramos na sala e digo-lhe para se sentar:

"- Achas que te portaste bem?
*Silêncio*
- Não me ouviste a ralhar contigo?
- Ouvi.
- Então porque é que continuaste a portar-te mal?
*Olha para o chão*
- A sério, explica-me porque gostava mesmo de saber porquê?
*Silêncio*
- Porquê?
*Silêncio*
- Porque é que não estavas a prestar atenção quando a professora estava a falar? Percebes muito daquilo?
- Sim.
- Então porque é que quando eu te perguntei a resposta tu não me respondeste?
- Ah, eu fiz isso de propósito.
- Não, não fizeste! Eu percebi muito bem que tu não sabias e ainda assim tu preferiste armar-te em engraçadinha de serviço!"

Continua sem me responder e evita olhar-me nos olhos (ah! já estás a perceber que a coisa não te está a correr muito bem).

"- Tens alguma coisa para me dizer?
- Sim.
- Diz lá.
- Desculpa."

Confesso que não estava à espera desta...

"-Vais voltar a portar-te mal para a próxima?
- Não.
- Então o que é que vais fazer para a próxima?
- Portar-me bem.
- Mesmo?
- Sim."

Já tinha passado este sermão há umas semanas e achei que tinha sido suficiente, enganei-me. Desta vez não te vais safar tão facilmente. Vais aprender da forma mais difícil.

"- Então acaba lá de comer e pão porque vais ficar aqui o intervalo todo de castigo a pensar no teu mau comportamento."

Acaba de comer e passado um pouco pede-me para fazer um desenho. Definitivamente não percebeu o conceito de castigo. 

"- Queres fazer um desenho?
- Sim.
- Então para a próxima porta-te bem."

Desta vez vais ver o meu lado mais amargo. 
Amuou. Levantou-se da cadeira e foi deitar-se no puff toda enroscada a fingir que estava a chorar. Virava-se para um lado, virava-se para o outro. Passado um bocado a Miriam entra na biblioteca com a sua Amiga Grande e senta-se numa mesa ao canto da sala a fazer desenhos. A Nicole tenta ir tem com ela mas digo-lhe que está de castigo e que não pode ir para lá, que tem de ficar sentada a pensar no comportamento que teve. Tenho a certeza que isto é das piores coisas que se pode fazer a uma criança. Ficar sem fazer nada é um terror. Um minuto mais parece uma hora e eu fiz isto durar para aí uns 15/20 minutos (o equivalente a um dia de tortura, portanto). 



Levanta-se e senta-se em frente a um computador e começa a mexer no teclado. Vou lá e arredo-o. Levanta-se a vai para a estante. Digo para estar quieta e se ir sentar. Não liga nenhuma e tira o livro na mesma. Vou lá e tiro-lhe o livro das mãos. Olha para mim:

"- Mas eu quero ler uma história!
- Queres?
- Sim...
- Então para a próxima porta-te bem
."

Fica ainda mais amuda e vai mexer nas cassetes. Vou lá e tiro-lhes as cassetes da mão. Volta a deitar-se no puff a chorar. Esta "dança das cadeiras" repetiu-se algumas vezes. Há uma altura em que decide desatar aos berros:

"-Eh pá! Deixa-me!!!
- Não te estou a agarrar.
Pára de me seguir!! Deixa-me!!!- Ainda bem que não sou surda...
- És má!!!
- Obrigas-me a ser assim. Para a próxima porta-te bem e já não sou."



Quanto mais falo mas ela se irrita. Pois é, desta vez sou eu a testar os limites dela. Chora. Tenta convencer-me através de chantagem emocional. Não resulta. Enquanto isto a Miriam tenta interagir comigo. Falo com ela ao mesmo tempo que mantenho um olho na Nicole. Do nada, levanta-se, aproxima-se de mim e dá-me um abraço. Fica abraçar-me durante uns bons 5 minutos. Pus os meus braços à volta dela.

"- Espero que saibas que vais continuar de castigo na mesma."

Estava a chegar a hora de vir embora. Arrumei o desenho que a Miriam me tinha dado (nem tudo foi mau...) e a minha peste veio ter comigo com olhinhos de cachorrinho abandonado. Agachei-me e olhei-a nos olhos:

"- Percebeste porque é que ficaste de castigo não percebeste?
- Sim...
- Sabes que se te voltares a portar mal não tenho problemas em voltar a por-te de castigo e ser má.
- Sim...
- Sabes que não é por te por de castigo que não gosto de ti. Eu gosto muito de ti."

Um beijo e um abraço e assim acaba mais uma manhã (com a paciência derretida e o juízo comido). Honestamente não me custa muito fazer isto porque sei que é para o bem dela. Não necessitaria de o  fazer se alguém o tivesse feito desde o início. Sei que o tempo que passo com ela não é suficiente para poder encaminhar totalmente, contudo tenho esperança que faça um bocadinho de diferença (embora tenha muito medo que seja completamente em vão). A cada dia que passa o projeto está mais perto de acabar... parece que ainda ontem comecei...


Lembrem-se:
Keep your heels, head and standards high,
Vanessa S.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Diário de uma Voluntária de Saltos #22

Como consequência de uma vida académica que mal me dá tempo para dormir, o dia da ida à escola teve de ser antecipado para terça em vez de quarta (não fosse eu ter uma carrada de trabalhos e reuniões à perna esta semana).
E assim foi. Hoje, depois de umas 5 horinhas de sono, lá fui eu. Chego à escola e, ao aproximar-me da porta da sala o que é que eu ouvi? NADA! Bati à parte e o que é que aconteceu? NADA! Estava trancada! Fui falar com a auxiliar e esta disse que eles tinham ido para a natação. Ontem o dia foi tão agitado que nem me lembrei de ligar para lá a avisar... Toma que é para ver se aprendes!

(Para a próxima não te armas em Chica esperta e ligas para lá antes para não bateres com o nariz na porta!)




Lembrem-se:
Keep your heels, head and standards high,
Vanessa S.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Diário de uma Voluntária de Saltos #21

Esta semana já ia preparada para o pior. Já tinha um discurso preparado e a minha cara de má bem treinada para qualquer possível mau comportamento. Felizmente, não foi necessário. 
A minha peste encontrava-se no seu nível máximo de preguicite aguda. Num exercício de completar espaços com as palavras corretas que se encontravam na margem direita do livro, decidiu copiar as palavras todas por ordem, convicta de que estava tudo bem feito. Depois outro exercício de copiar palavras e completar espaços. Mas, como eu cheguei no início deste exercício a cantiga foi outra. Estive ali a puxar por ela e a certificar-me de que ficava tudo bem feito até ao final da aula. Por entre sucessivos "Ajuda-me!", "Eu não sei...!", "Diz-me lá só as letras!", alguns suspiros de desespero, algumas cara de amuo e umas ameaças de que ficaria a acabar o exercício no intervalo se não se despachasse, lá se resolveu a terminar-lo. 
Tem graves problemas em tomar decisões do que quer fazer. Hoje não foi exceção. Mas decidiu que queria fazer um desenho. Pediu-me para voltar a repetir o desenho que havia feito a semana passada e que ela tinha rabiscado e ficado feio. Lá o fiz. Mas o que é que ela decidiu voltara a fazer? Rabiscá-lo claro. E depois faz birra. O que vale é que lhe passou depressa.
Saimos da biblioteca mas, como ainda não tinham entrado para a sala, ficou a brincar um pouco cá fora. A Íris veio ter connosco:

"- Eu gostava que tu fosses minha Amiga Grande.
- Então mas eu sou tua amiga.
- Mas não és grande...
- Não sou?! Sou maior do que tu!"
(A Íris é um doce de menina mas, como se porta bem não tem uma Amiga Grande. Contudo, é a minha Amiga Pequena adotada (apesar de nunca lho ter dito, é assim que a considero)).

Passado um bocado disse-lhes que tinha de me vir embora. A Íris deu-me um beijinho e a Nicole continuou a brincar. Depois olha para mim:

"- Vou-me embora.
- Está bem, adeus.
- Então e o meu beijinho?
- A Íris já te deu por isso..."

(e corre para a sala)

Pronto e é isto que tenho direito... Enfim, na "compra" de uma "tive direito" a duas (mas só a um beijinho).



Lembrem-se:
Keep your heels, head and standards high,
Vanessa S.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Diário de uma Voluntária de Saltos #20

Ontem quando cheguei à sala estava lá mais uma senhora ao pé da professora. Perguntei à Nicole se era outra professora deles. Disse que não, mas também não me soube explicar quem era. Mas tarde vim a saber que era a supervisora (acho que era este o nome técnico). A professora queixava-se que eles estavam especialmente mal comportados e, para mal dos meus pecados, a Nicole não era exceção.
Tinham de ler um pequeno texto de 6 linhas, cada um na sua vez. A minha peste teimava em não tomar atenção, em pintar e deixar, propositadamente, cai os lápis para o chão. Por várias vezes a chamei à atenção e lhe disse para estar sossegada. Nada. Metia lápis na boca, tentava ser engraçadinha e levantava-se da cadeira. Voltei a ralhar com ela e a dizer para estar quieta. A professora chama-a à atenção. Nada. Chega a hora do lanche, vai buscar o pão e o leite e sai da sala sem sequer me dirigir o olhar (pois já sabias o que te esperava não era?). Saio da sala, vou ter com ela e digo-lhe que precisamos de conversar (que é como quem diz: vais levar um ralhete):

"-Achas que te portaste bem na sala?
-Não...
- Não me ouviste a dizer para estares quieta e prestares atenção?
- Sim...
- Então porque é que não o fizeste?
(olha para o chão)
- Não ouviste a professora a ralhar contigo?

- Sim...

- Então porque é que continuaste a portar-te mal?
(volta a olhar para o chão)
- Vais voltar a portar-te assim?
- Não...
- Mesmo?
- Não...
- Espero bem que não!
(quase que começa a chorar)"





Achei que um raspanete era suficiente e decidi não a castigar mais pelo seu comportamento, uma vez que ela parecia ter percebido a mensagem. Quis ficar cá fora a brincar e cedi ao pedido. E depois de apanhadas com berlindes e alguns miminhos a pseudo Amigas Pequenas, a Nicole lembra-se que lhe apetece fazer um desenho. Disse-lhe que podiamos ir. Pede-me para levar uma amiga, mas a minha resposta é "não". Insiste, mas disse que como se havia portado mal não podia ir mais ninguém. Entra num conflito pessoal: quer fazer um desenho, mas não quer deixar as amigas. Nisto começa a choramingar porque diz que se for vai deixar de ter amigas (sua manhosa, chantagem emocional não resulta comigo). Agacho-me ao pé dela e explico-lhe que as outras meninas vão ser sempre amigas dela, não é por ir fazer um desenho que isso iria acontecer. Não fica muito convencida e continua com a lágrima no canto do olho.


"- Alguém te está a bater?

- Não...

- Morreu alguém?
- Não...
- Então porque é que estás a chorar? Hã, hã hã?"

Consigo roubar-lhe um sorriso mas fica chateada por eu levar a minha avante. Decide que, afinal, quer ficar a brincar cá fora. Mas, não haviam passado nem 5 min. e decide-se a fazer um desenho (aiii, dêem-me paciência!).
Estava a Miriam (amor-ódio da Nicole) com a Amiga Grande dela de castigo. Ela olha e comenta a situação. Digo-lhe que se ela se volta a portar mal lhe acontece o mesmo. Cala-se. Faz um desenho (ou pelo menos começa). Já tinha (supostamente) acabado, quando se lembra que quer escrever mais uma coisa (típico). Digo-lhe que não, que está na hora e que tem de arrumar as coisas para ir para a aula.

"- És má!
- Se te portasses bem já não tinha que ser assim."


Acho que nunca me tinha chateado tantas vezes numa só manhã com ela. Tanto a gabei que a estraguei. Experimenta repetir a dose para a semana que eu digo-te o que é que é bom para a tosse.


P.S.: Se alguma vez vos  disseram que a vida de voluntário é fácil, mentiram-vos (com os dentes  todos que tinham na boca)!

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Vanessa S.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Diário de uma Voluntária de Saltos #19

Na quarta-feira passada a minha pequena estava bastante distraída na sala de aula e tive de puxar imenso por ela. Contudo, apesar da cabeça na lua, estava relativamente calminha. Pediu-me para irmos as duas para uma salinha fazer desenhos e lá fomos. Começou com a intenção de fazer um desenho mas depois disse-me para eu a ajudar. Uns segundos a seguir já queria que eu lesse a história da Cinderela enquanto ela fazia um desenho. Mas, afinal, o que queria é que eu fizesse um desenho enquanto ela cantava uma música que nunca cheguei a ouvir... E foi  nesta indecisão que passamos a manhã. Não a notei tão cansada e a bocejar como nas semanas anteriores, o que me leva a crer que pode ter sido apenas algum episódio esporádico.
Eu estava com os meus óculos de sol na cabeça e, antes de me despedir dela, tirou-mos e colocou-os. Ficavam-lhe enormes! Foi mostrar à professora toda feliz da vida.
No final falei com a professora. Disse-me que notava que ela estava mais calma e que era capaz de fazer as tarefas que lhe eram pedidas, sendo que o problema era ser pouco concentrada. Tudo aquilo que disse a semana passada foi confirmado. É bom saber que estou a ter um impacto na vida desta pequena pessoa e que, de alguma forma, a estou a encaminhar (se bem que não sei se sou o único fator a contribuir para esta mudança).



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Keep your heels, head and standards high,
Vanessa S.

sábado, 18 de abril de 2015

Diário de uma Voluntária de Saltos #18

Por entre taquicárdias de apresentações e insónias de trabalhos, lá fui eu (em modo zombie) ter com a minha peste. Foi uma semana bastante difícil, não andava a dormir mais de 6 horas por noite e "rezei" muito para que ela estivesse calminha. Honestamente, só me apetecia ficar a repor as horas de sono que havia perdido durante os restantes dias, mas o compromisso fala mais alto. Nunca iria faltar à minha promessa de ir todas as semanas, simplesmente para ficar a dormir. Por isso, levantai-me e pus os pés a caminho.
Ia ter uma aula na quarta-feira de manhã, por isso havia avisado a professora de que ia na quinta. Ela informou-me que eles iam ter natação às 11 horas, portanto fui um pouco mais cedo do que o habitual.
Chego à sala e qual não é o meu grande espanto quando olho para a minha pequena e esta tem uma madeixa loira na franja. Eu vou explicar-vos melhor o panorama: ela tem o cabelo castanho escuro, pelos ombros, está a deixar crescer a franja e agora tem uma madeixa de cabelo oxigenada!!! Quando vi aquilo não sei se me deu mais vontade de rir ou de chorar (chamem a fashion police!).
Sentei-me ao seu lado. Esta a fazer o "G". Estava tudo até bastante bem feito. Sinto-me bastante orgulhosa quando vejo que ela está a conseguir fazer os trabalhos de forma muito mais perfecionista. Sinto que toda a minha insistência está a dar frutos. Noto também que, pelo menos quando eu lá estou, ela está mas sossegada na sala (apesar de continuar a cabeça no ar de sempre). Já sabe muito melhor as letras e consegue juntá-las se eu estiver ali ao pé dela a acompanha-la. No entanto, tanto a semana passada como esta, reparei que anda a bocejar muito. Algo que não é costume. Vou estar em cima do assunto e tentar perceber o que se passa.
Afinal eles não iam para a natação as 11 horas, mas sim às 10:30. Ou seja, fiquei lá com ela apenas 30 minutos.
Acho que ela já não se lembrava que me havia pedido um desenho na semana passada. Mas eu não me esqueci (só tive tempo de o fazer no metro enquanto me deslocava para a escola, mas fica a intenção). Entreguei-lho e ela, orgulhosamente, foi mostra-lo à professora. Ao contrário do que se possa pensar, é fácil fazer uma criança feliz. O segredo está mesmo nos pequenos gestos.
Não tinha vontade de vir e, no final, não tinha vontade de ir. Esta semana soube a pouco, mas para a semana há mais.

Tipo assim, mas menos chinesa e com o cabelo mais curto (ah! e desdentada!)...
Lindo né?


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Keep your heels, head and standards high,
Vanessa S.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Diário de uma Voluntária de Saltos #17

As férias da Páscoa já lá vão, já comemos todos que nem umas bestas (fofinhas) e, por isso, de volta ao trabalho e de volta ao voluntariado.
Quando cheguei à sala deparei-me com uma professora nova. Achei que a professora Marta estivesse doente mas, quando perguntei à Nicole ela disse-me que esta é que era a professora deles e que a outra a estava a substituir. Eles não gostam muito dela. É muito mais rígida e, mal há um burburinho manda logo dois berros (é verdade, tem uma vozinha irritante) mas isso faz com que eles estejam mais sossegados e concentrados no que estão a fazer. Pode ser que assim os meta na linha.
Sentei-me ao seu lado e ela estava a fazer o "R". A letra era legível e reparei que, algumas vezes, reparava que não estava lá muito bem feito e apagava e voltava a fazer (mais persistente, é assim que eu gosto). Enquanto desempenhava a sua (muito árdua) tarefa, reparei que não parava de bocejar e perguntei-lhe se não tinha dormido tudo. Chega-se muito sorrateira ao meu ouvido:

"- Sabes é que ontem deitei-me muito tarde. Fui sair com uma amiga (ela disse o nome mas, sinceramente, já não me recordo). Fomos as duas jantar com os nossos namorados e sem os nossos pais!"

Vais ser fresca vais...



Lanchou e fomos para o ginásio. Montou todo um circuito de ginástica mas não conseguiu decidir bem o que fazer com ele. Andou lá a correr e a saltar de um lado para o outro quando se decide, a 5 min. de me vir embora que quer fazer um desenho. Digo-lhe que não vai ter tempo mas insiste em começar. Cedi (aparentemente estava num bom dia). Só tem tempo de desenhar a relva e, como consequência, diz que tenho de acabar o desenho, fazer flores e sei lá mais o quê (estou tramada com esta cachopa)...
Apesar de tudo foi uma manhã calma. Retomamos em beleza.


Lembrem-se:
Keep your heels, head and standards high,
Vanessa S.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Diário de uma Voluntária de Saltos #16

O meu dia hoje começou com o melhor elogio que se podia receber, assim por volta das 10:00 horas:

"Bom dia amor. Hoje não pareces um zombie!"

E assim tu tens a certeza que estás pronta para enfrentar o resto do teu dia. Quem tem amigos destes, tem tudo!
Hoje foi difícil de levantar da cama e esta chuva também não ajudou. Ainda assim, acordei enérgica.
Chego à escola e, estava para entrar na sala quando a professora diz que eles estão a fazer uma ficha de avaliação. Pronto, lá tivemos de esperar (eu e outra Amiga Grande). Estavamos as duas com vontade de ver um filme. Andamos a bisbilhotar as cassetes todas que estavam para lá e a recordar memórias de infância (encher chouriços enquanto as piquenas não vinham).
Passados uns bons 20/30 min. aparecem as duas a correr e com o lanche na mão. A Miriam queria ver um filme mas a Nicole disse que queria fazer alguma coisa para o Dia do Pai (ela teve a iniciativa de fazer algo produtivo?! UAU!). E, se uma faz, a outra muda logo de ideias e faz também. Começam as duas a desenhar. Hoje a minha peste estava especialmente refilona. Houve um momento em que ela decidiu começar a partir as minas da lapiseira e tive de ralhar com ela, mas não amuou. Pediu desculpa e agarrou-se a mim. Já está a começar a perceber quando estou a falar a sério e que não é não.
Esta situação era mais delicada para a Miriam. Também costuma ser uma criança cheia de energia e bem disposta mas, quando se fala no pai o caso muda de figura. O pai dela está preso e ela não o deve ver muitas vezes. Passou a manhã a desenhar, com o carapuço do seu casaco com orelhas na cabeça. Metia-me com ela mas não ligava. Estava tão murchinha que até dava pena. Mas os miminhos da Amiga Grande ajudam sempre.
Cartas feitas e está na hora de ir embora. Já ia a dona Nicole disparada sabe-se lá para onde, quando a chamo e lhe pergunto pelo meu beijinho e abraço. Agacho-me e ela vem logo a correr para me abraçar. Resultado: caímos as duas.




Hoje o a brincadeira durou menos e esta semana começam as Férias da Páscoa. As próximas duas semanas serão para carregar baterias.



Lembrem-se:
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Vanessa S.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Diário de uma Voluntária de Saltos #15

"Levantei-me mas ainda não acordei."

Este foi o meu estado hoje de manhã (que, a bem dizer, se prolongou pelo resto do dia). Dei início à minha vidinha completamente em modo zombie (nem sei como é que não assustei as crianças quando cheguei à escola).
Entro na sala. Ainda estava a pousar as minhas coisas e já estava a ser brindada com um abraço e um beijinho. Depois da boa receção, Nicole de seu nome, volta a sentar-se e lê. Sim, ela por livre e espontânea vontade, sem que eu lhe tenha pedido ou a professora lhe tenha mandado, começa a juntar as letras e a ler uma ficha que havia  sido entregue (qualquer coisa sobre um macaco que caiu, não me recordo bem). Entretanto diz-me para eu me sentar na cadeira com ela e continua a ler. Encosta-se a mim e, mesmo sem que mo diga diretamente, pede-me miminhos. Ponho o meu braço à volta dela e vou passando os meus dedos pelos seus cabelos. Entretanto a professora pede voluntários para continuar a leitura que alguém havia começado. Ela põe o braço no ar, a professora dá-lhe a palavra mas ela não sabe onde é que a leitura tinha parado. É mesmo cabeça na lua.
Senta-se ao meu colo e depois no meio das minhas pernas. A professora distribui o lanche da manhã e ela começa a por-me a par das novidades: tem um colar novo que a avó lhe deu mas que não a deixa trazer para a escola e que a Débora (acho eu) ia a casa dela no sábado e iam brincar muito.
A hora do intervalo chega e hoje o pedido é para ficarmos cá fora a brincar todas (que bom, logo no dia em que estou com menos energia).
Antes de sairmos cá para fora:
"- Hoje não vou vestir o casaco porque não trouxe.
- Não trouxeste?
- Não.
- De certeza.
- Sim.
- Não me estás a mentir?
- Pronto, eu trouxe mas é fininho...".
Ahhhh, achavas que me passavas a perna sua malandreca!
Desta vez cedi eu. Fomos brincar para o sol e, como não estava frio, não viria grande mal a o Mundo.
Começamos por jogar à apanhada.  As outras meninas, inicialmente, estavam com vergonha de me apanhar mas, depois de a Nicole o fazer seguiram-lhe o exemplo. Foi engraçado porque mal precisava de me mexer (yes!). Bastava eu esticar o braço para apanhar quem me tinha apanhado (estes crescidos são mesmo manhosos). Depois passamos para uma versão mais atual do lencinho (tão atual que nem inclui lenço). Até correu bem, tirando o facto de a minha peste ser uma mandona e muitas vezes não conseguir aceitar o facto de que nem sempre os outros querem fazer o mesmo que ela. Ainda tem muitas dificuldades em ceder e em dizer não.
Entretanto as auxiliares trazem uma mesa para o recreio para venderem bolos com o objetivo de juntarem dinheiro para um passeio de fim de ano. Ok, eu percebo que esta seja a forma mais fácil de angariar fundos, mas a última coisa de que estas crianças precisam é de mais açúcar. É assustador a quantidade de bolos, sumos, e pastilhas que os pais dão aos filhos para eles comerem nos intervalos. Com isto, eles não vão descansar enquanto não arranjarem forma de levar dinheiro para a escola para enfardarem mais porcarias. Já estava na altura de alguém começar a tomar consciência do que se passa... É realmente impressionante. Escusado será dizer que, à volta da mesa estavam um bando de crianças que não arredavam pé (garanto-vos que, se os olhos comessem, aquela mesa tinha ficado limpinha num instante!).
Aproximava-se a hora de despedida e a Nicole olha para mim e diz:
"- Podes ir-te embora. Eu agora queria brincar com as minhas amigas."
Olha para as amiguinhas e diz:
"- A minha Amiga Grande agora tem de ir estudar."
Olhem-me a lata deste piolho! No início só queria mimo e agora manda-me embora. Estou tramada...
Fui ver se a outra Amiga Grande já estava despachada para nos irmos embora. Entretanto vêm duas pequenas atrás de mim: a Íris e a Anaísa (acho que é assim que ela se chama... já deu para perceber que sou péssima com nomes não já?). Elas não têm Amigas Grandes e têm alguma dificuldade em perceber porque é que isso acontece se se portam bem. Claro que todos querem ter Amigos Grandes. Quem é que não quer alguém que brinque com eles e lhes dê mimo quando quiserem? Portanto, enquanto a Nicole estava a praticar a sua independência, eu andava com 2 atrelados à volta da minha cintura. Ganhei mais duas pestes.



Lembrem-se:
Keep your heels, head and standards high,
Vanessa S.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Diário de uma Voluntária de Saltos #14

Acho que ainda estou meia parva com o meu dia de voluntariado de ontem. Não me interpretem mal, correu tudo bem. Bem demais até!
Chego à porta da sala e, em vez do habitual alvoroço, o que é que se ouve? NADA! Ao que parece, a professora Marta estava doente e veio outra substituí-la: A Encantadora de Pestes. Nunca os tinha visto tão quietos, calados e sérios. Fiquei, completamente, de queixo caído. Estava à porta da sala e, como a professora não estava familiarizada com o projeto decidi deixar os trabalhos um bocadinho de lado. Ia ser uma hora só de brincadeira. A Nicole, caladinha que nem um rato, só se levantou quando lhe fiz sinal para vir ter comigo (que linda!).
A Miriam não estava, por isso calculei que seria mais tranquilo (só não sabia que ia ser  tanto). Vinha super calminha. Saiu da sala, abraçou-me várias vezes e depois fomos para a biblioteca porque ela queria fazer desenhos. Sentou-se e desenhou, desenhou, desenhou... Tentei meter conversa mas não me ligou muito. Esteve nisto imenso tempo! Depois disse que queria que acabasse de  ler a história da Cinderela que haviamos começado há umas semanas atrás. Começamos a história de novo. Sentou-se ao meu colo, apoiei a minha cabeça na dela e comecei a ler. Depois de 3 páginas pediu-me para desenhar um castelo como o do livro (o que vale é que, para ela, sou melhor que o Picasso). Parei de ler e meti mãos à obra. A Amiga Grande da Miriam estava numa mesa à parte e, ora lia, ora mexia no telemóvel, ora olhava para nós. A Nicole lá achou que ela podia fazer algo mais útil do que simplesmente esperar que eu saísse e disse-lhe para se sentar ao pé e nós e, enquanto nós faziamos uma bela obra de arte, ela lia (assim toda a gente trabalha, acho justo). E assim foi. Por entre a leitura lá se ia rindo e gozando com o nariz da madrasta que parecia uma batata, com as filhas dela que eram feias ou dos seus vestidos que eram horríveis. Com tudo isto, esqueci-me do lanche. Mas ela não. Fomos para a sala e comeu num instante (qual aspirador em velocidade máxima) e depois fomos brincar cá para fora. Já estava quase na hora de ir embora e como vi que ela estava a preferir brincar com os colegas despedi-me. Houve só uma expressão um pouco menos feliz na hora da despedida, um abraço e um beijinho.



No geral, foi um dia fácil. Sem birras, sem zangas, sem gritos. Sabe bem que ela se porte bem de vez em quando. Mas, tenho que confessar, se fosse sempre assim, não me dava metade do gozo que me dá.


Lembrem-se:
Keep your heels, head and standards high,
Vanessa S.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Diário de uma Voluntária de Saltos #13

O Carnaval já passou e, por isso, podem voltar a por as máscaras e regressar à rotina habitual.
A minha foi adiada um dia. Em vez de ir ter com a minha peste à quarta-feira, como já vem a ser hábito, fui à quinta (outros valores de outro nível de importância se levantaram).
Quando fico pelo menos uma semana sem lá ir, esqueço-me de como aquele abraço de bom dia consegue animar o meu mau humor matinal.
Quando cheguei estava a fazer uns exercícios de matemática. Tinha umas jardineiras vestidas e uma camisola cor de rosa. Fez-me lembrar o quanto, na idade dela, detestava jardineiras. Aparentemente, é algo que temos em comum. Tinha o cabelo apanhado num rabo de cavalo e um gancho para segurar a franja. Estava toda penteadinha, quando se lembra de tirar o elástico. O cabelo devia estar molhado ou com algum spary ou creme quando foi preso por isso, quando o soltou, ficou a parecer um abajur.
Quando iamos a sair da sala começou o drama de vestir o casaco. Relembrei-a da birra que tinha feito e perguntei se queria que me chateasse com ela. Após uns minutos de insistência vestiu-o (mas contrariada). Tinha dito que queria ir fazer um desenho para a sala mas, como ouviu a Miriam dizer que queria ir para o ginásio, mudou de ideias. Quando fomos buscar a chave, não foi a correr como de costume. Ia devagar e com uma expressão amuada. Encostei-a a mim, pus a mão por cima do ombro e fui-lhe fazendo festinhas na bochecha. Chegamos ao ginásio e lança-me um olhar à Gato das Botas. Não precisei de ouvir nada. Disse-lhe que ali dentro podia tirar o casaco. Só tinha do o vestir quando estivesse na rua. Tirou-o e claro, foi buscar um arco. Rápido se fartou e passou para uma bola. Estivemos a jogar as duas alguns minutos.
"- Tenho sede.
- Ok, vamos beber água então. Veste o casaco.
- Depois podemos ir fazer um desenho?
- Sim."
Desta vez, procedeu à árdua tarefa de vestir o casaco sem qualquer tipo de birra. Bebeu água e fomos para a sala. Estava lá outra Amiga Grande com o seu Amigo Pequeno e alguns bonus (mais pequenada) a jogar às escondidas. Eles estavam a brincar às escuras e a Nicole queria fazer um desenho (E agora como é que eu resolvo isto?). O que me valeu foi que eles pouco tempo depois resolveram ir brincar lá para fora e ficamos sossegadas a fazer desenhos. Desenha sempre o mesmo: um jardim, nuvens, árvores, uma casa... Depois pediu-me para desenhar corações e para a ensinar porque, aparentemente, os meus eram muito giros (só mesmo uma criança de 7 anos para elogiar os meus desenhos). Muito atarefadas nesta nossa missão, o tema de conversa foi parar aos namorados. Chega-se muito sorrateira e séria ao meu ouvido e sussurra:
"- Tens um namorado?
- Não.
- Oh vá, lá. Fala lá a sério. Eu não conto a ninguém.
- Estou a falar a sério. Não tenho.
- Não acredito.
- Porquê?
- Porque não."
E não ficou convencida.


Pediu-me para fazer um envelope e para escrever a data e "Diogo". Rapaz sortudo!
A parte mais engraçada de todo este bocadinho bem passado é que ela se esqueceu que tinha o casaco vestido.
Antes de voltar para a sala foi beber água outra vez. Estava lá uma amiguinha e ouvia pedir-lhe para dar a carta ao Diogo por ela, porque tinha vergonha. Tão refilona e quando chega à hora da verdade é que são elas.
Foi uma boa manhã. Não tinha acordado com grande espírito para o que quer que fosse, mas assim que lá cheguei logo me passou. Hoje a peste deu tréguas. Yes! Missão cumprida!


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Vanessa S.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Diário de uma Voluntária de Saltos #12

Esta semana foi calminha, sem birras ou brigas. Os passarinhos cantaram e correu tudo como às mil maravilhas.  Isto porque a pestinha estava de férias de Carnaval.
Aguardem pela semana que vem. Será mais interessante de certeza.





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Vanessa S.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Diário de uma Voluntária de Saltos #11

"Então, como é que correu o último dia de voluntariado?"
Birra: nível master!


Quando lá cheguei estavam a fazer uma ficha de avaliação. A professora deixou que dessemos uma ajudinha. A Nicole estava a "tentar" fazer um exercício de correspondência de imagens às respetivas palavras (dado, pão, leite...). Sim, a "tentar" porque, no fundo, ela ligava as imagens à primeira palavra que lhe parecia ser a correta, sem se dar ao trabalho sequer de ler. Ela sabe as letras se eu lhe perguntar, junta-las já demora mais tempo e nunca o faz por iniciativa própria. Se não puxar por ela desiste muito facilmente.
Pela primeira vez fui confrontada com o pensamento da possibilidade de chumbar. Estamos a meio do ano letivo e ela ainda tenta adivinhar a palavra que está escrita em vez de a ler. Sente-se uma grande desigualdade naquela sala. Há alguns miúdos que sabem fazer as coisas bem mas, a maioria tem muitas dificuldades. São vinte e muitas crianças para apenas uma professora. É uma turma muito grande para conseguir dar resposta às necessidades de todas as crianças. É impossível dar a atenção devida a cada uma delas. Para ajudar à festa, estavam lá alguns alunos do 4° ano, pois a professora havia faltado. Que orgulho neste Ministério da Educação.
Chega a hora do intervalo e começam as dores de cabeça. Estava imenso frio mas, sendo a Nicole uma teimosa de último grau, insistia em não querer vestir o casaco apesar de estar a tremer de frio (raça da miúda!). Depois de algumas vezes a dizer que se não vestisse o casaco não iamos brincar, lá o colocou sobre os ombros e fomos para o ginásio. Pouco tempo depois pediu-me para irmos para o recreio. Disse -lhe que para irmos lá para fora tinha de vestir o casaco. E assim começou a birra.
"- Não quero. Não quero.
- Não queres o quê?
- Não quero vestir o casaco!
- Ok, então ficamos aqui dentro.
- Não! Quero ir lá para fora!
- Então se queres ir lá para fora tens de vestir o casaco porque está muito frio.
- Não! Não! Não quero!"
Andou lá de um lado para o outro com cara de quem todos lhe devem e ninguém lhe paga, enquanto a Miriam andava de patins qual profissional experiente e lhe dizia que me esta a tratar mal e que se continuasse assim eu nao vinha mais. No fundo, a atiçar mais o fogo (obrigada...). Depois de se esconder atrás dos colchões de ginástica, de muito resmungar e se arrastar de um canto para o outro, foi buscar um arco. Estava com ele na mão, a roda-lo muito distraida quando acerta com ele em cheio na cabeça. Desmanchei-me a rir, não consegui conter-me. E ela também não porque fez exatamente o mesmo. Veio para mais perto de mim e, por momentos, pensei que a birra tivesse passado. Enganei-me. Passado um pouco começam as duas a discutir e volta a lembrar-se que estava amuada. Começa a testar-me. Vai para ao pé da porta. Vou também.
"- Não mandas em mim. Não me podes obrigar. Não quero vestir o casaco. Quando fores embora vou tira-lo.
- Eu não quero saber. Quando eu me for embora tu fazes o que quiseres, enquanto eu estiver aqui fazes o que eu disser."
Sem exageros esta resmungisse deve ter demorado uns 15 minutos. E nem sei como me mantive tão calma. Depois começamos uma dança. Ela saia de perto da porta depois esperava que eu não estivesse a olhar e avançava em direção da mesma. Eu olhava para ela com uma expressão séria.
"- Oh pá deixa-me!
- Não te estou a agarrar."
A dança repetiu-se pelo menos mais uma vez. Até que, por fim, veste o casaco e vai para junto da porta (novamente).
"- Quando chegar lá fora vou tirar o casaco."
Consegui manter-me assertiva e firme. Olhei-a nos olhos e disse-lhe que se livrasse de tirar o casaco lá fora. "Oh pá!" Tira o casaco e foge para o outro canto do ginásio.
Como não podia faltar, ou não era dia para nenhuma de nós, Nicole e Miriam entram em discussão. Já não sei bem como surgiu só de lembro de:
"- Vá anda cá bater anda!" ou "- Vou dizer ao meu namorado para te bater."
Aqui chateei-me mesmo. Disse-lhe que se estava a portar mal, que não estava a gostar destas birras e ameacei mesmo não voltar se ela se continuasse a portar assim. Acalmou um poouco.
Digo-lhe que está na hora de ir embora e que tem de arrumar o que desarrumou.
"- Então anda cá ajudar!
- Não é anda cá ajudar. É ajuda-me sff. E, se conseguiste desarrimar isso sozinha também consegues arrumar.
- Para a semana quero fazer um desenho. E não acabamos de ler a história!
- Está bem. E não lemos porque não quiseste."
Finalmente veste o casaco e saimos. Mesmo amuada quis dar-me um beijinho de despedida.
Não foi um dia fácil. Mas se ela é teimosa eu sou mais. E não desisto!
Desafia-me que eu estou cá para isso. Ainda vais perceber que o osso duro de roer não és tu. Sou eu.

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Vanessa S.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Diário de uma Voluntária de Saltos #10

"Mas quem é que deixou a porta do congelador aberta?!"
Foi esta a reação que tive hoje quando saí de casa. Confesso que custa um pouco deixar a cama quentinha num dia destes, especialmente em época de férias. Mas, como se costuma dizer, mãos frias coração quente. E lá vou eu para mais um dia de voluntariado.
Modo de hoje: muita conversa e pouco trabalho.
Ainda presa no meio do meu habitual abraço de bom dia, fez logo questão de me dizer que não tinha o nome no quadro e que não tinha recados. Que linda, a portar-se "bem" como a Amiga Grande quer.
Foi complicado acabar o exercício depois de eu chegar. Aparentemente havia todo um leque de novidades e temas muito mais interessantes do que copiar umas letras meia dúzia de vezes.
"- A Miram já estava a dizer que vocês não vinham... Mas eu sabia que tu vinhas. E vieste!"
Senta-se, pega no lápis, olha para o livro mas não faz nada. Olha para mim e vem na minha direção como quem quer contar um segredo:
"- Sabes uma coisa, tenho um namorado.
- A serio?! Como é que se chama?
- Diogo. E é do 2º ano. Já namoramos há muito tempo sabes, desde que andavamos na creche! Desde os 3 anos!!
- Então e só me contas agora? E como é que andaram os dois juntos na creche se ele é mais velho?"
Debatemos o assunto durante uns minutos mas não chegamos a conclusão nenhuma.
"- Eu e a Íris somos namoradas dele.
- Ele tem duas namoradas?!
- Sim.
- E tu deixas?!
- Sim. A Íris é minha prima...
- Ah pronto. Assim fica tudo em família.
- Ele disse que gostava muito de mim. Disse que me amava!!
- E tu, também gostas dele?
- Sim.
- Está bem."
Como é tudo tão simples e ingénuo nesta idade. Menos o Diogo. Sim, esse é só esperto.
E eis que, de repente, ela faz A pergunta:
"- Estás em que ano? E estudas o quê?"
Pronto, cá está ela. Sinceramente, já tinha estranhado que ela nunca tivesse perguntado nada sobre a minha escola, sendo ela uma criança tão curiosa. Tentei explicar-lhe que estava numa escola de crescidos onde se aprende o que temos de fazer antes de ir trabalhar. No que toca ao que eu estudo, disse-lhe que estudava o ambiente (não podemos dizer que somos estudantes de psicologia, portanto lembrei-me de uma cadeira que tive no semestre passado Comportamento Humano e Ambiente) algo que ela não fazia a mínima do que era. Disse-lhe que tinha a ver com a poluição e as árvores... Mas a dúvida manteve-se: "-Então mas o que é que queres ser quando fores grande?". Disse-lhe que ainda não sabia, que ainda estava a pensar sobre isso. Disse-me para ser enfermeira ou médica (pffff, claro). Perguntei porque é que eu haveria de querer ser isso. Se era para tratar dela. Assim meia envergonhada disse que não. Que era porque ela também queria ser "ou médica ou enfermeira ou veterinária ou cabeleireira". Disse-lhe que ia pensar bem sobre o assunto.
Hoje foi o dia de ele ajudar a distribuir o leite na hora do lanche. E lá foi ela toda contente, qual vedeta a pavonear-se pela sala com as suas botas de glitter dourado (muito shine bright like a diamond). Enquanto lanchava perguntou-me se hoje podiamos ficar a brincar lá fora. Disse-lhe que sim, mas logo mudou de ideias quando ouviu a Miriam dizer à Amiga Grande dela que queria ir para o ginásio. E lá fomos nós, para o ginásio e mais além.


Lá andava ela entretida entre arcos, colchões, cordas e uma bola de basketball. Decide começar aos pontapés à bola. Disse-lhe que aquela bola era para jogar com as mãos e não com os pés. Volta a repetir a gracinha e volto a dizer-lhe para não fazer aquilo. E cá vai o 1º amuo (ligeiro vá) do dia. Pois é, custa ouvir não, não custa? Mas bem te podes ir habituando. Tu podes ter um feitio difícil mas eu também sei ser muito teimosa.
No meio de toda a brincadeira lá veio ao de cima a relação amor-ódio das duas. Porque uma não queria brincar com a outra, porque "já não és mais minha amiga". Dia já não era dia se não houvesse isto não é?
Farta-se e pede-me para irmos para a biblioteca. Disse que sim, mas que primeiro tinha de arrumar tudo o que tinha tirado do sítio. "Não" e vai em direção à porta. Ok, está na hora de ser assertiva e ter voz firme. Não saí do sítio e, desta vez, bastou chamar duas vezes. Arrumou tudo sozinha e fomos embora.
Quando chegamos à biblioteca pede-me para lhe ler um livro do Egas e do Becas e pergunta-me se todas as semanas lhe posso ler uma história. Disse-lhe que, se quisesse, eu o podia fazer (embora saiba que, muito provavelmente, não vai acontecer). Sentei-me ao lado dela a ler. Após 3 páginas pediu-me para passar para o final. Depois deu-me para as mãos o livro da Casinha de Chocolate mas também rapidamente se fartou. Por fim, a Cinderela. O livro preferido dela. Mas não tivemos tempo de o ler até ao fim porque estava na hora de vir embora. E, depois do 2º mini amuo do dia, concordamos em marcar o livro com um bocadinho de papel e acabá-lo para a semana. Entretanto a Amiga Grande da Miriam entra e diz que já estavam todos na sala e que iam fazer pão. Ui! Acho que nunca a vi ir para a sala com tanta pressa. Quando estou a fechar a porta já estava ela a abrir a porta da sala. "Olha xau!" gritei-lhe eu. Veio logo para trás a correr dar-me um abraço e despedir-se de mim e da outra Amiga Grande. Ai, ai minha pestinha trapalhona.


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Vanessa S.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Diário de uma Voluntária de Saltos #9

Hoje a capital acordou fria e ventosa e eu acordei depois de apenas duas míseras horas de sono (maninha eu sei que estás a ler isto, Starbucks às 9 da noite quando tenho de me levantar cedo no dia seguinte não foi uma brilhante ideia...). Mas nada disto impede a Amiga Grande de ir ter com a sua Amiga Pequena.
Desta vez, chego à sala e não há queixinhas da professora nem nome no quadro. Boa!
Hoje a tarefa da aula era escrever -m; -ma; -me; -mi; -mo; mu. Foi, aparentemente, fácil. Não causou grande birras nem trapalhices. O trabalho foi todo acabado antes do intervalo (Oh yeah!).  Enquanto isto, parecia que eu não tinha sido a única a ter uma má noite. Uma certa e determinada pequena afirmava ter estado acordada até à uma da manhã por não conseguir dormir. Teve um pesadelo e foi para a cama da irmã. Quando tinha de se levantar é que lhe estava a saber bem dormir (conheço bem a sensação). Sempre na tentativa de me impressionar (e não sei de onde é que ela tirou esta ideia), contou-me que uma vez tinha saído pela janela uma vez, agarrada a um cortinado para ir ter com o pai. E isto do último andar atenção! Humm humm... claro. Acho que temos acrobata de circo. O festival de Monte Carlo que se prepare!
Todos estes relatos foram acompanhados de muitos miminhos: ora me abraçava e dava beijinhos, ora se sentava ao meu colo. Tenho muita sorte.



Chega a hora de distribuir os leites e os pães e fica sempre tudo em alvoroço. Todos querem ajudar e andar a cirandar de um lado para o outro na sala. Hoje uma das meninas a distribuir o leite era loirinha de olhos claros (no fundo, uma bonequinha). Não sei como se chama, mas é muito simpática. Cumpria meticulosamente a tarefa que lhe havia sido atribuída, com toda a responsabilidade e seriedade que esta implicava. Quando chega à altura de dar o leite à Nicole, olha para mim e diz:
"- Amiga Grande, também queres um?"
Foi uma ternura. Devo ter esboçado o maior sorriso possível.
"- Não amor, obrigada."
Quanto à hora da brincadeira, começamos por um aquecimento com os patins no ginásio, uns saltos no colchão...nada de especial para esta atleta. Depois, decidiu que queria fazer um desenho. Fomos para a sala. Fiquei proibida de espreitar, porque o desenho era para mim. E, como eu sou uma Amiga Grande muito linda e obediente, foi isso que fiz. E lá chegou a hora das queixinhas daquela relação amor-ódio que é a Nicole e a Miriam. Mais um desentendimento. O costume. Começo mesmo a achar que elas não conseguem viver sem isto. A verdade é que têm as duas um feitiozinho lixado. Não deu tempo para acabar o desenho, mas disse-me que mo dava para a semana. Hoje não houve birras de despedida, apenas um beijo (ela estava demasiado ocupada a acabar a sua obra prima).
Mais aventuras para a semana.



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Vanessa S.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Diário de uma Voluntária de Saltos #8

Bem me queria parecer que milagres de ano novo não duravam muito...
Ontem quando chego à sala levo logo com as queixinhas da professora a dizer que ela se andava a portar mal e lá estava o nome dela no quadro. Ok, é mais assim a Nicole que eu conheço.
Estava a fazer os trabalhos quando cheguei e já percebi a manha dela: tudo o que seja copiar frases e assim, tudo bem. Mas se for para ordenar ou qualquer coisa que implique pensar mais um bocadinho esqueçam! No entanto, sem estar à espera, tive direito a uma prendinha: uma cartinha com corações uma coroa e (supostamente) eu, num "envelope" e tudo! Fiquei babada mas não demonstrei para que ela acabasse o trabalho. Assim um pouco à pressão, lá fez QUASE tudo.
Desta vez não havia chave do ginásio então fomos para uma salinha. Já lá estava a Miriam com a sua Amiga Grande e iam ver a Bela e o Monstro. "SIIIMMMM!!" Acho que dei um salto de contentamento e tenho a certeza que fiquei mais feliz com a ideia do que propriamente ela. Sentamo-nos todas nos puffs para ver o filme mas aquilo não durou muito tempo. Passados 5 min. a Miriam mudou logo de filme e a Nicole foi buscar um puzzle para montar. Nem chegou a encaixar 3 peças voltou a por tudo dentro da caixa e foi logo ter com o microfone (coitado, já estava ali sossegado no canto dele há muito tempo). Começou logo a desafiar a Miriam para um dueto mas ela não estava muito convencida e isto durou até ser hora de vir embora. Conclusão: nem ouve sessão de cinema nem concerto. 



Na hora de vir embora fez um pouco de "birra" porque a Miriam também estava a fazer mas nada de especial. Não houve aventuras por aí além desta vez... E eu agradeço! Especialmente porque tinha dormido para aí umas 4 horas. Enfim, para a semana a saga continua.


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Vanessa S.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Diário de uma Voluntária de Saltos #7

Hoje podia ser mais um dia em que passo a manhã a stressar e a tentar arrancar os cabelos nesta maldita época de exames, mas não. Hoje é dia de ir ter com a minha Amiga Pequena.
Sinceramente precisava de sair de casa para fazer algo que me permitisse esquecer que nem sei 1/3 do que é suposto e o exame é já na sexta (sim, dramática é o meu nome do meio).
Chego à escola, entro na sala, o abraço e o beijinho do costume e bora lá ajudar nos trabalhos. Por entre a grande preguiça dificuldade em escrever pote e apito, conta-me que a mãe havia sido operada a um braço e que voltava hoje para casa. Finalmente começa a contar-me espontaneamente coisas, especialmente sobre a família (que era o tabu inicial). Acabados os trabalhos vem o lanche. Hoje decidiu que era muito mais giro beber o leite diretamente do pacote, sem a palhinha. Pensei que a bela ideia fosse dar mau resultado mas vá lá, não houve danos de maior. Enquanto isto, pergunta-me como tinha sido o meu Natal (já não se devia lembrar que lhe tinha perguntado o mesmo na semana passada). Disse-lhe que tinha corrido bem. Entretanto aparece a amiguinha Miriam que hoje não tinha recebido a visita da Amiga Grande. Entra na conversa e começa a dizer que recebeu tudo (e mais um par de botas) da Violeta: um tablet, uma mesa, uma camisola, um computador... Coincidência das coincidências: a Nicole também recebeu isso tudo (humm...humm...claro...). Estavamos no corte e costura, a por as novidades em dia, quando chegam à conclusão de que sou parecida com a Violeta: "O cabelo é igual e até as unhas!". Digo-lhes que somos parecidas porque somos primas (apesar de nem saber bem quem é). Não ficaram muito convencidas.
Saímos da sala para o intervalo. A Nicole (como sempre) queria ir para o ginásio. Vou buscar a sala e apercebo-me que a "miss popular" tinha prometido a meia escola que podiam vir connosco para o ginásio. MEDO! Entramos em processo de negociação. Digo-lhe que pode levar 5 amigos e nem mais um porque senão depois levávamos nas orelhas! CAOS! Meto a chave na porta e, por momentos, senti-me como num dia de exame no anfiteatro (que é equivalente ao 1º dia de saldos). Alguns entram para o ginásio. Ok, chega de ser boazinha e compreensiva: "Todos fora do ginásio já! Entram 5 pessoas hoje, para a semana entram os, outros.". E por entre pedidos de misericórdia e algumas lágrimas, lá consegui fechar a porta do ginásio. Em menos de instantes já havia patins, arcos, cordas e bolas por todo o lado. Até estava tudo a correr bem, mas eles não conseguem não fazer barulho. Entra um auxiliar e corre tudo para a rua menos a mim e a Nicole e aí vem o momento "Eu bem te avisei".
Após tudo estar evacuado, propus que fizessemos um concurso para ver quem conseguia saltar à corda durante mais tempo. Ganhei a 1ª vez e deixei-a ganhar as outras. Coitada, até já respirava fundo. Depois decide montar todo um posto de ginástica: 2  colchões, meia dúzia de arcos e uma bola de basquetebol. Umas corridas, cambalhotas, dribles e fartou-se.


"-Vamos brincar às mãe e aos filhos" e deita-se no colchão. Deitei-me também.
(eu)"-É para dormir?"
(ela) "-Sim."
(eu) "-Então mas tens de fechar os olhos para dormir."
Risse, fecha os olhos e finge ressonar.
(eu) "-Estás a ressonar?! Assim não consigo dormir!"
Estavamos no mesmo colchão e tinha o meu braço por cima dela. Ri-se e manda-me ir para a minha cama (o outro colchão). Nisto levanta-se e acabou-se a mãe e a filha, vamos é é jogar à bola. Também não durou muito tempo. Pega nos arcos e começa a tentar fazer malabarismos, qual artista do Circo Victor Hugo Cardinali . Tenta rodá-lo na cintura. Faço o mesmo (muito mau resultado). Depois tenta rodar 2 arcos num braço. Não vos consigo explicar a expressão estampada no seu rosto ao fazer isto, mas era para além de hilariante. Ela sabia que havia a probabilidade de levar com os arcos na cara, por isso afasta ligeiramente a cabeça para trás, fecha os olhos franzindo a testa. Ri-me muito. Depois tenta trocar o arco de um braço para o outro enquanto estes rodavam (a expressão hilariante mantém-se). Não o consegue fazer, pede-me para ficar calada (deduzo que para se concentrar) e pede-me para que me sente e veja. Nisto ela começa a rodar o arco com um braço, fecha completamente os olhos e, enquanto ela levanta o outro braço para passar para aí o arco, o arco salta-lhe e sai disparado para o outro lado da sala. Resultado: ela fica com os olhos fechados a rodar o braço sem nada. Ainda me rio agora só de me relembrar desta imagem.


Chega a hora de arrumar. Demorou uns segundos a assimilar, mas até foi pacífico. Depois de tudo arrumado agarra-se à minha cintura: "-Amiga Grande, quando é que não tens aulas à tarde?". Pronto, já sei o que vem daí. Disse-lhe que tinha sempre aulas à tarde. "Podias pedir à tua professora para trocar de horário e vir à tarde, é que assim ficavas mais tempo." Expliquei-lhe que, independentemente de vir de manhã ou à tarde o tempo era sempre o mesmo e, depois de alguns segundos a tentar convencer-me a ficar mais tempo para a próxima saímos do ginásio.
Já tinham entrado para a sala, mas a Miriam ainda andava por ali a passarinhar. Agacho-me para dar um abraço e um beijo à minha peste preferida, e  ela aproveita para me confidenciar que a Miriam a tinha empurrado. Que queria que para a próxima ela ficasse connosco mas que depois ela a tratava "mal". Nisto a Miriam chega e ouve o que ela disse. Elas têm uma relação amor/ódio. Não conseguem viver uma com a outra nem uma sem a outra.
Olhei muito séria para elas e disse:
"-Quero que me prometam uma coisa." Estavam as duas muito atentas e sérias a olhar para mim, perceberam que estava a falar a sério.
"-Não quero que se chateiem mais. Quero que sejam amigas e se portem bem as duas. Para a semana eu e a Amiga Grande da Miriam voltamos e vou saber se cumpriram."
Aceitaram e a promessa ficou selada com, cada uma do meu lado, a dar-me um beijo. Lindas! Dei um beijo e um abraço às duas e levei-as à sala.



Foi o melhor momento desta semana caótica. E, apesar de, no fundo, eu saber que ela tem razão em relação a eu estar lá pouco tempo é a melhor uma hora que podia querer e noto que também faz a diferença para ela. Saber que ela começa a contar-me coisas sem eu ter de perguntar, que começa a confiar em mim é sinal de que estou a ganhar a confiança dela e isso deixa-me muito feliz. Tem uma maneira muito própria de demonstrar que gosta de mim, mas é um gostar puro e não podia querer mais.
Que venham mais manhãs como a de hoje.


Lembrem-se:
Keep your heels, head and standards high,
Vanessa S.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Diário de uma Voluntária de Saltos #6

Com as Férias de Natal, fiquei duas semanas sem ver a minhas peste e, tenho de confessar, já estava a ficar com saudades. Esta semana começaram as aulas e lá vem a pequenada toda em pulgas e com as baterias carregadíssimas para a escola. Pensei que a Nicole viesse super eléctrica e irrequieta mas, felizmente, não se verificou.
Chego à sala e sou logo recebida com um abraço e um beijinho (que ótima forma de começar o ano). Ela estava a escrever umas frases quando eu cheguei. Levantou-se para me cumprimentar e voltou a sentar-se. Qual não é o meu espanto quando ela, por iniciativa própria, começa a escrever. E as letras até se percebiam! Ela estava a escrever em português e não em mandarim (ou a gatafunhar como era costume)! Acho que fiquei tão feliz quando parva perante este cenário! Ok, não era a letra mais perfeitinha do mundo, mas comparado com o que já vi estava fantástico! Depois ajudei-a porque lá se deve ter fartado e começou a dizer que não sabia fazer. Comecei a puxar por ela e conseguiu fazer tudo. Acho que foi a primeira vez que saí com ela da sala com uma tarefa toda acabada e bem feita. Chegou à altura de distribuir o lanche da manhã. Ela arrumou os livros, os lápis (que é como quem diz, aquela miniatura de carvão) e sentou-se super direita na cadeira (como quem tinha acabado de engolir um garfo). Vi, deu-me muita vontade de rir, mas não disse nada. Perante a minha falta de reação ela fez questão de fazer um gesto com a mão por cima da mesa, para que eu reparasse que estava limpinha e arrumada e de referir  que era assim que se devia sentar. Disse-lhe o que queria ouvir:"Que linda, muito bem!". Mas manteve a postura e o olhar sério. Comeu o pão com manteiga mas, quando ia beber o leite, entornou um bocado para a camisola e para a cadeira (a trapalhona de sempre). Disse-lhe para ir buscar um lenço. Foi e, sem reclamar, limpou a camisola, a cadeira e acabou de comer sem qualquer tipo de problema. A sério que esta é a Nicole?! Não pode, deve ser a gémea de certeza!!
Desta vez não levei nada planeado para ela fazer e, como estava um frio desgraçado fomos para o ginásio. Correu de um lado para o outro, andou a brincar com arcos, a fazer cambalhotas nos colchões no  fundo, a exibir-se para a Amiga Grande. Depois perguntou-me se podia chamar umas amiguinhas para virem brincar também, disse que sim (estava uma mãos largas hoje). Vieram três. Por momentos pensei que não fosse resultar porque ela não costuma gostar quando tem que dividir a minha atenção, mas correu tudo bem. Correram, gritaram, saltaram...
"-Vanessa olha o que eu consigo fazer!"
"-E eu também olha, olha! Não viste, vou fazer outra vez!"
A Nicole sempre a dar ordens (que ninguém cumpre): "A Amiga Grande é minha, eu é que sei!". Tão pequena e tão mandona.


Chegou à hora crítica da despedida. Pedi que arrumassem tudo antes de irmos embora porque eram bolas, cordas, colchões e arcos por todo o lado. Tive que me fazer ouvir. No início não resultou bem, mas depois começaram todas a contribuir e a arrumar. Ajudei-a a vestir o casaco para me vir embora. É claro que não me livrei do: "Já?! Mas ainda agora chegamos! Fica mais um bocadinho, vá lá!", mas até foi pacífico, sem birras nem nada do género. Acho que foi também a primeira vez que saí de lá à hora estipulada. Não me importo de ficar lá mais um bocado quando posso, mas hoje não podia mesmo de ser. Dei-lhe um abraço e um beijinho, disse-lhe para se portar bem e que voltava para a semana.
Reparei que, das última vezes que lá fui, não tenho visto o nome dela no quadro, o que, por si só já era um bom começo. Mas o que vi hoje deixou-me completamente de boca aberta! Não sei o que é que lhe aconteceu nas férias, mas fez efeito. Não sei se ela estava particularmente bem disposta hoje, mas saí de lá com a sensação de que as coisas se estão a compor e que, talvez tenha um pequeno impacto nisso. No fundo, saí de lá super orgulhosa! A minha menina a portar-se bem, quem diria! Quem disse que isso do "Ano Novo, Vida Nova" era mentira? Vamos ver se é para manter.
A Saga continua para a semana.


Lembrem-se:
Keep your heels, head and standards high,
Vanessa S.